Marcos

Marcos suava. Seu coração palpitava devido a emoção. Os cabelos molhados grudavam no rosto e atrapalhavam um pouco sua visão. Ele não sabia se morreria naquele lugar. Foi então que decidiu fazer a única coisa que conseguia pensar naquele momento. Sacou a arma da cintura e decidiu lutar por sua vida.

O homem de terno cinza riu da situação. Ele segurava um pequeno livro no braço esquerdo e com o direito mirava com sua arma para a pilastra onde marcos se escondia, apenas esperando a oportunidade de puxar o gatilho.

— Desista garoto. Acabou – o homem de terno cinza falava com dificuldade devido o imenso rasgo em seus lábios. Sangue escorria pelos cantos de sua boca – Aceitar isso vai facilitar as coisas pra mim.

— Eu decidi que não vou morrer hoje – mesmo falando com confiança, era impossível esconder o medo e a insegurança em sua voz.

— Você não decide mais nada aqui. Esqueceu do nosso acordo?

— Não esqueci de nada. Fui enganado por um covarde que não cumpre suas promessas.

— Covarde? Acho que você perdeu mesmo o juízo garoto.

Marcos não pensou, saiu de trás da pilastra e apontou a arma para o homem de terno cinza. Os dois agora se encaravam. Mesmo segurando a arma com as duas mãos, Marcos ainda tremia devido ao nervosismo da situação.

— Eu só quero sair vivo daqui. Me garanta isso e nunca mais vai ouvir falar de mim.

— Esse é o problema. Eu até queria fazer isso, mas já tomei minha decisão. Não volto atrás depois que decido uma coisa. Você me conhece sabe que sou assim.

— Então não vou morrer sozinho – ele estava decidido, falou sem vacilar – você vai comigo.

O homem de terno cinza começou a rir como se fosse a coisa mais engraçada que já tinha ouvido. Sua risada ecoou pelo imenso galpão onde estavam.

— Essa foi boa. É por isso que eu não queria te matar, gosto de você garoto. Só não atirei ainda por respeito ao tempo que trabalhei com seu pai.

— Outro que você matou seu desgraçado.

— Ele me traiu. E você fez o mesmo, já devia ter desconfiado. Filho de peixe, peixinho é – Ele cuspiu no chão. Sangue e saliva se misturavam enquanto eram absorvidos pelo concreto – Você cheira a merda igual seu pai.

Marcos tinha ódio em seus olhos, ele começou a puxar o dedo contra o gatilho. Foi quando sentiu. Seu peito estava quente. Ele olhou e viu sangue manchando sua camisa branca. Por que não tinha ouvido o disparo? A adrenalina em seu corpo era tanta que a única coisa em que estava focado era no homem de terno cinza. Só percebeu quando já era tarde demais. Marcos não tinha mais forças para atirar, suas mãos soltaram a arma e ele começou a sentir dor. Seu corpo ficou pesado e ele foi ao chão. Seu rosto encostou no chão gelado e ele viu uma pequena poça de sangue se formar ao redor de sua boca.

— Por que? – as palavras saíram quase inaudíveis.

— Essa é a nossa diferença garoto – ele se aproximou de Marcos e se agachou para garantir ser ouvido – Eu não volto atrás com as minhas palavras. Deveria ter me matado quando teve a chance. O seu pai pelo menos tinha culhão e teria terminado o serviço.

Marcos não conseguiu entender a última parte, as palavras começaram a sumir e sua visão estava cada vez mais turva. Ele sentiu a dor desaparecer e ficou aliviado. Não chegou a perceber que morreu.
O homem de terno cinza se levantou, ajeitou sua gravata verde-musgo e foi embora em direção a algum lugar. Marcos foi esquecido.

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