Só havia os dois no quarto, o homem e a máquina. Desesperado e sentado em sua poltrona, estava Renan. A sua frente, estava o robô cuidador que não tinha rosto, apenas uma grande tela preta coberta por um grande corpo metálico. A conversa entre os dois, que seria definitiva, estava começando.
- Por que você não me ama? - começou Renan, com a voz embargada.
- Não sou qualificado para responder isso - a voz tinha o som metálico e sereno.
- Por que ninguém me ama?
- Não sou qualificado para responder isso.
- Por que eu existo? - lágrimas começavam brotar nos olhos dele.
- Não sou qualificado para responder isso.
- Qual a sua função então? - disse gritando e deixando toda a emoção transparecer.
- Minha função é cuidar de você.
- Você não consegue responder uma simples pergunta? Como pode cuidar de mim?
- Minha função é cuidar de você.
- Se eu me matasse agora, você sentiria minha falta? - a pergunta saiu sem intenção.
- Não sou qualificado para responder isso.
- Eu vou me matar amanhã, anote isso.
- Um novo compromisso foi agendado para amanhã.
- Como você pode ser tão insensível?
- Não sou qualificado para responder isso.
- Vou ligar para os meus amigos?
- Sua agenda de contatos está vazia.
- Eu não aguento mais. Eu só quero que alguém se importe - Renan levantou da poltrona e se aproximou mais do robô - Você se importa? - lágrimas escorriam por seu rosto, sua visão estava embaçada e podia sentir o gosto salgado delas na boca.
- Não sou qualificado para responder isso.
Em um acesso de fúria, Renan pegou aquele grande quadrado cinzento e o jogou na parede. A carcaça da máquina ficou um pouco amassada e sua grande tela preta rachou, fazendo com que as letras verdes ficassem borradas.
- E agora, você se importa? - o grito fazia eco pelo quarto.
- Não sou qua-qualificado para responder i-i-isso - a voz robótica alternava entre o grave e o agudo.
Renan começou a chutar o robô. Sua lataria amassava mais e mais a cada chute. O que era um grande quadrado foi virando uma caixa metálica retorcida e sem uma forma definida. A grande tela deixou de exibir letras verdes e passou a ser um grande borrão colorido e estático.
- Eu te odeio. Odeio o mundo. Odeio a vida. Odeio principalmente a mim - Renan já estava completamente alterado e não raciocinava direito - O que você acha disso?
Apenas um grande chiado saia das caixas de som que agora estavam danificadas. O chiado foi aumentando, como se estivesse sendo sintonizado e então um som quase inaudível começou a ser produzido, até que finalmente, a máquina conseguiu responder
- Não sou qualificado para responder isso.