Blonde


“Eu gostaria de poder escrever algo tão misterioso quanto um gato."
Edgar Allan Poe

Não era muito tarde quando ele veio até ela.
Ela não sabia onde estava. O quarto era escuro e iluminado apenas por uma luminária amarelada. Ela estava em sentada em uma cama velha. Ele estava na janela. Tinha os olhos azuis e uma expressão de tédio, seu andar era calmo e intimidador, parecia dançar enquanto caminhava. Seus olhos a julgavam. Os pelos eram negros e uma pequena coleira indicava seu nome. Blonde. Não era um gato qualquer que estava diante dela, e ela sabia disso.
- Boa noite - disse o gato com um tom monótono e sem vida.
O gato falava. Ela não se espantou, talvez achasse estranho se ele não falasse.
- Boa noite - ela respondeu com a mesma cordialidade que o gato.
- Você tem sido procurada há algum tempo. Finalmente consegui encontrá-la.
- Quem está me procurando?
- Como assim quem está te procurando? Você foi perdida há muito, meus superiores a esperam.
- Superiores? Perdida? Eu acho que não sou quem você procura.
Ela se sentia confusa, nada naquele lugar fazia sentido. Mas ao mesmo tempo tudo parecia tão normal.
- É claro que é. Diga me, qual o seu nome?
- Manu.
- É exatamente quem procurávamos. Menu.
- Não, é Manu. Ma-Nu.
- Detalhes. Eu estou aqui para levá-la - o gato se aproximou um pouco mais e subiu em uma pequena cômoda que havia no quarto - Temos muito o que conversar no caminho. Precisa aprender sobre seu novo mundo agora.
- Eu não posso ir assim, tenho família, amigos, coisas pra fazer. Não posso largar tudo.
- É claro que pode. E eu estou aqui exatamente para isso.
Blonde se aproximou mais. Ficou bem próximo do rosto de Manu. Sua língua áspera tocou suas bochechas, ela foi obrigada a fechar os olhos. Ele a encarava com seriedade quando ela tornou a abri-los novamente.
- Por que fez isso?
- Foi preciso. Agora você possui a proteção. Eles não poderão se aproximar de você durante a nossa o caminho.
- Quem são eles?
- Eles são todos aqueles que você já conheceu. Pessoas que poderão te fazer desistir. Nossa jornada não pode ter distrações. Não esse tipo de distração.
- E quando nós vamos ir? -  a pergunta simplesmente saiu. Ela estava começando a aceitar a ideia.
- Imediatamente. Infelizmente não poderá se despedir de ninguém. É um caminho complicado e despedidas não ajudam ninguém, todos sempre ficam tristes e desistem de seguir adiante.
O gato pulou de volta para a janela, se virou e continuou a falar.
- Sei que isso não é fácil. Mas quanto mais rápido você vier, mais fácil será.
Manu não conseguia pensar direito sobre tudo aquilo. Deveria ir? Deveria realmente seguir o gato falante? Mesmo indo contra todos os instintos, ela se levantou e foi até a janela. O gato pareceu sorrir naquele momento.
- E como vamos para esse tal caminho? Vou ter que pular da janela?
- Exatamente.
No instante seguinte o gato se jogou da janela em direção ao vazio da noite. Ela tinha ido longe demais para desistir. Não sabia porque, mas após se levantar da cama parecia que era impossível voltar atrás da decisão. Ela subiu na janela e não olhou para baixo. Ela pulou. A jornada finalmente tinha começado.

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